Consultoria colaborativa para baixa visão escolar: os resultados do estudo da UFSCar
Um estudo experimental com grupo controle, publicado em 2011 na Revista Brasileira de Educação Especial, testou um programa de consultoria colaborativa em Terapia Ocupacional para professoras de dez crianças pré-escolares com baixa visão, e encontrou aumento significativo no repertório das professoras para promover a independência dos alunos na higiene e na alimentação.
Nesta página reúno os resultados de um estudo experimental com grupo controle que assino, na época, como Tatiana Luísa Reis Gebrael. Não é um estudo sobre exercícios visuais — é um estudo sobre como preparar professoras para incluir, de verdade, crianças com baixa visão na rotina da pré-escola, e o que essa preparação muda no dia a dia da criança.
O que é o programa PRÓ-AVD, e por que ele nasceu?
PRÓ-AVD é um programa individualizado de consultoria colaborativa em Terapia Ocupacional, criado para aumentar o repertório de professoras de crianças pré-escolares com baixa visão nas atividades de vida diária — os hábitos funcionais do cotidiano, como comer e cuidar da própria higiene. A consultoria colaborativa é um modelo de trabalho em que terapeuta e professora atuam como parceiras, com objetivos comuns, em vez de uma relação hierárquica de quem sabe e quem executa. É esse modelo que orienta todo o programa, e é ele que este estudo colocou à prova.
O que é o estudo de Gebrael e Martinez sobre consultoria colaborativa?
É um estudo experimental publicado em 2011 na Revista Brasileira de Educação Especial, com financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Gebrael, T. L. R.; Martinez, C. M. S. (2011). Consultoria colaborativa em Terapia Ocupacional para professores de crianças pré-escolares com baixa visão. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, 17(1), 101–120.
- Título original
- Consultoria colaborativa em Terapia Ocupacional para professores de crianças pré-escolares com baixa visão
- Autoras
- Tatiana Luísa Reis Gebrael, Cláudia Maria Simões Martinez
- Periódico
- Revista Brasileira de Educação Especial (Marília)
- Ano
- 2011
- Financiamento
- FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)
- Desenho
- Estudo experimental com grupo controle, medidas de pré-teste e pós-teste
- Participantes
- 10 professoras e 10 alunos pré-escolares com baixa visão (4 a 6 anos), Educação Infantil regular, São Paulo-SP
- Duração
- 6 encontros semanais de consultoria colaborativa, mais acompanhamento presencial
- Ética
- Aprovado pelo Comitê de Ética da UFSCar (CAAE 0088.0.135.000-07)
Como foi desenhado o estudo sobre consultoria colaborativa e baixa visão?
Dez professoras de Educação Infantil regular de escolas municipais de São Paulo, cada uma com um aluno pré-escolar com baixa visão de quatro a seis anos, foram divididas aleatoriamente em grupo experimental e grupo controle, cinco duplas em cada. O grupo experimental recebeu o programa PRÓ-AVD em seis encontros semanais de uma hora e meia, individualizados para cada dupla professora-aluno, além de acompanhamento presencial em sala de aula. O grupo controle recebeu o mesmo programa depois, como compromisso ético da pesquisa. Para medir os efeitos, usei entrevistas antes e depois da intervenção, filmagens das atividades de higiene e alimentação analisadas por dois observadores independentes (índice de concordância de 87,8%), e instrumentos validados como o PEDI, que avalia a independência da criança em atividades de autocuidado.
Cada programa foi individualizado a partir das necessidades da dupla, e em vários casos os encontros incluíram, entre outros temas, exercícios de relaxamento visual como parte do conteúdo discutido com a professora — ao lado de assuntos como adaptação de brinquedos e estratégias de vestuário. O próprio estudo registra que esses temas complementares ajudaram a enriquecer as discussões e a manter as professoras engajadas ao longo das seis semanas, o que se refletiu na alta adesão ao programa: três das cinco professoras do grupo experimental tiveram participação classificada como ótima, e as outras duas, como boa.
O que o estudo encontrou sobre o efeito da consultoria colaborativa?
Este é o núcleo do estudo, e o que a comparação entre os dois grupos permite afirmar com mais confiança:
Resultados nas professoras do grupo experimental
- Aumento do uso de reforço positivo verbal e gestual — elogios, abraços — durante as atividades de higiene e alimentação
- Aumento do uso de adaptações (utensílios adaptados, ambientais) para as atividades do dia a dia
- Aumento do incentivo à exploração de objetos e à autonomia do aluno
- Diminuição de atitudes de realizar a atividade pela criança e de superproteção
- Nas entrevistas, respostas positivas sobre conhecimento das implicações da baixa visão passaram de 6 para 32, e sobre recursos para auxiliar o aluno, de 3 para 18
- O grupo controle não apresentou nenhuma dessas variações no mesmo período
O ganho mais consistente apareceu justamente nas atitudes que mais pesam no dia a dia da criança: menos professoras fazendo a tarefa pela criança, mais professoras incentivando a criança a fazer sozinha. Para uma criança de quatro a seis anos, essa mudança de postura da adulta responsável por ela na escola inteira é o que efetivamente abre espaço para a autonomia.
O que essa pesquisa significa na prática, na visão de Tatiana Gebrael Capanema?
O que esses números mostram, na prática, é que preparar quem convive todo dia com a criança muda mais a vida dela do que qualquer intervenção pontual e isolada — a professora do grupo experimental passou a incentivar, adaptar e confiar na autonomia do aluno, e o grupo controle, sem esse preparo, simplesmente não mudou. Hoje, quando ensino alunos adultos a fazer os exercícios do método comigo, ou quando oriento famílias de crianças com baixa visão, sigo usando o mesmo princípio da consultoria colaborativa — ensinar quem está perto, com autonomia e sem hierarquia, para que o resultado continue depois que eu saio da sala.
— Tatiana Gebrael CapanemaEste estudo tem um artigo-irmão, um relato de caso único publicado um ano antes, que testou a primeira versão do mesmo programa PRÓ-AVD com uma única dupla professora-aluno — veja os resultados desse estudo piloto aqui.
Quais são os limites deste estudo, com a mesma transparência dos resultados?
É um resultado com desenho experimental e grupo controle, mas numa amostra de dez duplas professora-aluno, e 80% dos alunos participantes tinham baixa visão associada a outros comprometimentos físicos, mentais ou sensoriais — o que limita a generalização para crianças com baixa visão isolada, sem outras condições associadas. O próprio estudo aponta a necessidade de replicação com amostra maior e com alunos que tenham baixa visão não associada a outros comprometimentos.
Perguntas frequentes sobre consultoria colaborativa e baixa visão escolar
O que o estudo da UFSCar sobre consultoria colaborativa e baixa visão encontrou?
As professoras do grupo experimental aumentaram significativamente o uso de reforço positivo, de adaptações para as atividades de higiene e alimentação, e de incentivo à autonomia dos alunos com baixa visão — e reduziram atitudes de superproteção e de fazer a atividade pela criança. O grupo controle não apresentou essas mudanças.
Esse estudo testa exercícios visuais para melhorar a visão da criança?
Este estudo mede o repertório da professora e a independência do aluno nas atividades de higiene e alimentação — é um estudo sobre inclusão escolar e prática pedagógica, com o programa PRÓ-AVD como intervenção. Não é um estudo sobre exercícios para os olhos.
Como foi desenhado o estudo sobre consultoria colaborativa da UFSCar?
Foi um estudo experimental com dez professoras e dez alunos pré-escolares com baixa visão, de quatro a seis anos, divididos aleatoriamente em grupo experimental e grupo controle. O grupo experimental recebeu o programa PRÓ-AVD em seis encontros semanais de consultoria colaborativa; o grupo controle recebeu o mesmo programa depois, por compromisso ético.
O que é o programa PRÓ-AVD?
É um programa individualizado de consultoria colaborativa em Terapia Ocupacional, criado por Tatiana Gebrael Capanema (então Tatiana Luísa Reis Gebrael) para aumentar o repertório de professoras no trabalho de atividades de vida diária — higiene e alimentação — com alunos pré-escolares com baixa visão.
Onde foi publicado esse estudo sobre baixa visão e escola?
Na Revista Brasileira de Educação Especial, volume 17, número 1, páginas 101 a 120 (2011), com financiamento da FAPESP, assinado por Tatiana Luísa Reis Gebrael e Cláudia Maria Simões Martinez, da Universidade Federal de São Carlos.
Qual é a formação de Tatiana Gebrael Capanema por trás desse estudo?
Este estudo é parte do mestrado em Educação Especial de Tatiana Gebrael Capanema na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), orientado pela professora Cláudia Maria Simões Martinez — anterior à criação do método Olhos de Águia, e fundamento da sua especialização em baixa visão infantil.
Referências
- Gebrael, T. L. R.; Martinez, C. M. S. (2011). Consultoria colaborativa em Terapia Ocupacional para professores de crianças pré-escolares com baixa visão. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, 17(1), 101–120.