Glaucoma e treino visual: os resultados do estudo da JAMA Ophthalmology
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado em 2014 na JAMA Ophthalmology, testou treino visual computadorizado em 30 pessoas com glaucoma. Os participantes que treinaram tiveram ganho de sensibilidade em áreas de visão residual significativamente maior que o grupo placebo, além de tempo de reação mais rápido.
Glaucoma é uma doença progressiva que, sem controle adequado, pode levar à perda irreversível de visão. Todos os participantes deste estudo já tinham pressão intraocular bem controlada por tratamento médico antes do treino. O controle da pressão intraocular continua sendo o que impede a perda progredir — o treino visual soma-se ao tratamento, nunca o substitui. Mantenha o acompanhamento oftalmológico regular e siga a orientação do seu médico sobre o controle da pressão intraocular.
Nesta página reúno os resultados de um ensaio clínico publicado na JAMA Ophthalmology, uma das revistas mais respeitadas de oftalmologia do mundo. Não sou autora deste estudo — trago ele aqui porque testa, com rigor científico independente, uma ideia central do meu trabalho: que parte da visão residual pode ser trabalhada mesmo depois do diagnóstico de glaucoma.
O que é glaucoma, e por que a pressão intraocular importa?
Glaucoma é um grupo de doenças que danifica o nervo óptico, geralmente associado a uma pressão intraocular elevada, e é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. O dano ao nervo óptico costuma começar pelas bordas do campo visual, de forma silenciosa, antes de a pessoa perceber qualquer perda — por isso o diagnóstico e o acompanhamento oftalmológico regular são decisivos. O tratamento padrão controla a pressão intraocular com colírios, laser ou cirurgia, e é esse controle que impede a doença de avançar. É a partir de pacientes já sob esse controle médico que a pesquisa que apresento aqui investigou o que mais poderia ser feito pela visão que já havia sido afetada.
O que é o estudo de Sabel e Gudlin sobre treino visual e glaucoma?
É um ensaio clínico publicado em 2014 na JAMA Ophthalmology, conduzido pelos pesquisadores Bernhard A. Sabel e Julia Gudlin, do Instituto de Psicologia Médica da Universidade de Magdeburgo, na Alemanha. É o estudo com o desenho metodológico mais rigoroso entre os reunidos nesta base científica — o que dá um peso particular ao resultado.
Sabel, B. A.; Gudlin, J. (2014). Vision restoration training for glaucoma: a randomized clinical trial. JAMA Ophthalmology, 132(4), 381–389. DOI: 10.1001/jamaophthalmol.2013.7963 · PubMed · Registro NCT01799707
- Título original
- Vision restoration training for glaucoma: a randomized clinical trial
- Autores
- Bernhard A. Sabel, Julia Gudlin
- Periódico
- JAMA Ophthalmology
- Ano
- 2014
- DOI
- 10.1001/jamaophthalmol.2013.7963
- Desenho
- Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo
- Participantes
- 30 pessoas com glaucoma (15 no grupo treino, 15 no grupo placebo)
- Critério de inclusão
- Glaucoma com campo visual estável e pressão intraocular bem controlada por tratamento médico
- Duração
- 1 hora de treino diário, durante 3 meses
- Grupo controle
- Sim — grupo placebo com tarefa no mesmo formato e duração
Como foi desenhado o estudo sobre treino visual e glaucoma?
Trinta pessoas com glaucoma, todas com pressão intraocular já controlada pelo tratamento médico, foram divididas aleatoriamente em dois grupos de 15. Um grupo fez treino visual computadorizado, online, em casa, por 1 hora diária ao longo de 3 meses — uma tarefa de discriminação de estímulos aplicada especificamente nas áreas de visão residual de cada participante. O outro grupo fez uma tarefa placebo, no mesmo formato e pela mesma duração, sem o componente de treino. Nem os participantes nem os avaliadores sabiam quem estava em qual grupo — é o que caracteriza o desenho duplo-cego, e é o que torna esse resultado mais difícil de contestar do que o de um estudo aberto.
O que o estudo encontrou depois de 3 meses de treino visual?
Este é o achado central, e o mais forte de toda a base científica reunida aqui:
Resultados do grupo que fez o treino visual
- Ganho de acurácia na detecção de estímulos em áreas de visão residual, medido por perimetria de alta resolução, estatisticamente superior ao grupo placebo (p = 0,007)
- Superioridade sobre o placebo em todos os testes perimétricos aplicados
- Ganho independente de movimentos oculares dos participantes
- Melhora também no tempo de reação aos estímulos
A conclusão dos próprios autores, no artigo original: a perda de campo visual no glaucoma é, em parte, reversível por meio de treino visual comportamental, computadorizado e controlado — o que os pesquisadores descrevem como uma nova opção de reabilitação para glaucoma. O mecanismo proposto é a neuroplasticidade do córtex visual: a capacidade do cérebro de reorganizar como processa os estímulos que ainda recebe.
O que esse resultado significa na prática, na visão de Tatiana Gebrael Capanema?
Esse é o tipo de estudo que eu queria ter em mãos toda vez que alguém com glaucoma chega até mim achando que, depois do diagnóstico, não há mais nada a fazer além de seguir com o colírio. Não é isso. O controle da pressão intraocular continua sendo, e sempre será, o que protege o nervo óptico — isso não muda, e eu nunca digo o contrário para meus alunos. Mas esse estudo mostra, com o rigor de um ensaio randomizado e duplo-cego, publicado num periódico de peso mundial, que a visão que resta pode responder a treino direcionado. É essa possibilidade que sustenta minha prática com alunos que têm glaucoma.
— Tatiana Gebrael CapanemaQuais são os limites deste estudo, com a mesma transparência dos resultados?
É um resultado obtido com o desenho mais rigoroso desta base científica — randomizado, duplo-cego, controlado por placebo — mesmo com uma amostra de 30 pessoas. O tamanho da amostra é o que limita quanto o achado já pode ser generalizado para toda a população com glaucoma, e é por isso que os próprios autores recomendam replicação em grupos maiores. O resultado também é específico ao perfil estudado: pacientes com campo visual estável e pressão intraocular já bem controlada — o próximo passo natural é testar o mesmo protocolo em outros estágios da doença.
Perguntas frequentes sobre glaucoma e treino visual
O que o estudo da JAMA Ophthalmology encontrou sobre glaucoma e treino visual?
Os participantes que fizeram o treino visual tiveram ganho de acurácia na detecção de estímulos em áreas de visão residual, medido por perimetria de alta resolução, estatisticamente superior ao grupo placebo (p = 0,007). O tempo de reação também melhorou. Os autores concluem que parte da perda de campo visual no glaucoma é, em parte, reversível com esse tipo de treino.
Como foi desenhado o estudo de Sabel e Gudlin sobre glaucoma?
Foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 30 pacientes com glaucoma divididos em dois grupos de 15. Um grupo fez treino visual computadorizado por 1 hora diária, durante 3 meses; o outro fez uma tarefa placebo no mesmo formato e duração.
O treino visual funciona mesmo para quem já está em tratamento médico para glaucoma?
Sim. Todos os 30 participantes do estudo já estavam com a pressão intraocular controlada por tratamento médico antes de começar o treino — e mesmo assim, o grupo que treinou teve ganho de sensibilidade em áreas de visão residual estatisticamente superior ao grupo placebo (p = 0,007), além de tempo de reação mais rápido no mesmo teste.
Onde foi publicado o estudo sobre treino visual e glaucoma?
Na JAMA Ophthalmology, volume 132, número 4, páginas 381 a 389 (2014), um dos periódicos mais respeitados de oftalmologia do mundo, com DOI 10.1001/jamaophthalmol.2013.7963 e registro do ensaio clínico NCT01799707.
Por que Tatiana Gebrael Capanema traz um estudo do qual não é autora?
Porque ele testa, com rigor científico independente, uma ideia central do trabalho dela: que parte da visão residual pode ser trabalhada mesmo depois do diagnóstico de glaucoma, sempre em conjunto com o tratamento médico. Trazer evidência de terceiros, publicada em periódico de alto nível, é parte de manter a página fiel ao que a ciência sustenta.
Referências
- Sabel, B. A.; Gudlin, J. (2014). Vision restoration training for glaucoma: a randomized clinical trial. JAMA Ophthalmology, 132(4), 381–389. doi.org/10.1001/jamaophthalmol.2013.7963 · PubMed PMID 24504128 · Registro do ensaio clínico: NCT01799707