Treino acomodativo e miopia: os resultados do estudo da Optometry and Vision Science

Um estudo publicado em 2009 na Optometry and Vision Science testou 6 semanas de treino acomodativo domiciliar — flippers de lentes, cartão de Hart e treino com prismas — em 10 jovens míopes em progressão. A facilidade acomodativa melhorou de forma estatisticamente significativa após o treino; a magnitude inicial da miopia transitória induzida por perto não mudou de forma significativa.

Não sou autora deste estudo — trago ele aqui porque mede, com instrumentos clínicos objetivos e desenho antes/depois bem documentado, uma ideia central do meu trabalho: que a função acomodativa do olho responde a exercício direcionado, mesmo em pessoas já míopes.

O que é miopia transitória induzida por perto, e por que ela importa?

Depois de um período de trabalho visual de perto — ler, usar o celular, estudar — o olho pode levar alguns segundos a minutos para voltar a focar bem objetos distantes. Esse desfoque temporário é chamado de miopia transitória induzida por perto (NITM, na sigla em inglês), e acontece porque o cristalino não relaxa sua curvatura com a rapidez necessária depois do esforço de foco de perto. Pessoas míopes costumam ter uma NITM maior e mais demorada para dissipar do que pessoas com visão normal, e parte da literatura da área especula que esse desfoque residual, repetido muitas vezes ao dia, possa contribuir para o ambiente que favorece a progressão da miopia — uma hipótese ainda em investigação, não um fato estabelecido.

O que é o estudo de Vasudevan, Ciuffreda e Ludlam sobre treino acomodativo?

É um estudo conduzido no SUNY State College of Optometry, em Nova York, publicado em 2009 na Optometry and Vision Science.

Vasudevan, B.; Ciuffreda, K. J.; Ludlam, D. P. (2009). Accommodative Training to Reduce Nearwork-Induced Transient Myopia. Optometry and Vision Science, 86(11), 1287–1294. DOI: 10.1097/OPX.0b013e3181bb44cf

Título original
Accommodative Training to Reduce Nearwork-Induced Transient Myopia
Autores
Balamurali Vasudevan, Kenneth J. Ciuffreda, Diana P. Ludlam
Periódico
Optometry and Vision Science, volume 86, número 11
Ano
2009
DOI
10.1097/OPX.0b013e3181bb44cf
Desenho
Estudo experimental de grupo único, com avaliação antes e depois do treino — sem grupo controle nem randomização
Participantes
10 estudantes de optometria, todos míopes com progressão de pelo menos 0,5 D nos últimos 2 anos, idade média de 23,6 anos
Duração
6 semanas, 20 minutos de treino domiciliar por dia, 5 dias por semana
Grupo controle
Não há

Como foi desenhado o treino acomodativo?

Os dez participantes fizeram três tipos de treino em casa, todos os dias: flippers de lentes (alternância rápida entre lentes positivas e negativas de 2 dioptrias, olhando um texto a 40 cm), cartão de Hart (alternância de foco entre um cartão a 6 metros e outro a 40 cm) e treino com prismas soltos (estimulando a vergência em conjunto com a acomodação). A facilidade acomodativa e os parâmetros da miopia transitória induzida por perto foram medidos antes do treino, após 3 semanas e após 6 semanas, usando um autorrefrator de infravermelho para medições objetivas e repetidas do estado refrativo.

O que o treino acomodativo mudou depois de 6 semanas?

Este é o achado central do estudo, incluindo o que não mudou de forma significativa:

Resultados depois de 6 semanas de treino acomodativo

  • A taxa do flipper de lentes aumentou de forma estatisticamente significativa: de 11 para 16 ciclos por minuto no olho direito (p = 0,04), de 11 para 19 no olho esquerdo (p = 0,03), e de 8 para 11 na visão binocular (p = 0,03)
  • A taxa do cartão de Hart também aumentou de forma significativa: de 22 para 33 ciclos por minuto no olho direito (p = 0,01) e de 22 para 31 no olho esquerdo (p = 0,02)
  • Houve tendência de queda no tempo de dissipação da miopia transitória induzida por perto após a sexta semana de treino, com correlação estatisticamente significativa entre maior taxa do flipper e menor tempo de dissipação (p = 0,02)
  • A magnitude inicial da miopia transitória induzida por perto — o quanto o desfoque chegava a ser logo após o esforço de perto — não mudou de forma estatisticamente significativa (0,52 D antes, 0,46 D depois)

A conclusão dos próprios autores: o treino acomodativo melhorou de forma consistente a dinâmica da resposta acomodativa nesses míopes em progressão — resultado que, segundo eles, está de acordo com estudos anteriores em outras populações — mas não alterou de forma estatisticamente significativa a magnitude inicial do desfoque transitório em si. Os autores recomendam investigações futuras especificamente sobre o efeito desse tipo de treino na progressão da miopia ao longo do tempo, algo que este estudo, por seu desenho e duração, não testou.

O que esse resultado significa na prática, na visão de Tatiana Gebrael Capanema?

O que mais me interessa nesse estudo é o que ele mostra sobre treinabilidade: a rapidez e a precisão com que o olho troca o foco entre perto e longe melhoraram de forma mensurável em apenas seis semanas, com um protocolo simples e replicável em casa. É exatamente esse tipo de resultado — função visual que responde a prática consistente e orientada — que sustenta o valor de exercícios bem ensinados, mesmo quando, como neste caso, o desfecho que todo mundo queria ver mudar (a miopia transitória em si) não mudou de forma estatisticamente significativa. Cito esse resultado junto com essa ressalva porque é assim que evidência de verdade se lê.

— Tatiana Gebrael Capanema

Quais são os limites deste estudo, com a mesma transparência dos resultados?

O tipo de resultado que este estudo entrega

É um estudo pequeno (10 participantes), sem grupo controle nem randomização, o que significa que parte da melhora observada pode refletir familiaridade com o teste ou outros fatores além do treino em si. A amostra foi de estudantes de optometria jovens e assintomáticos — não crianças, não pessoas com miopia alta, e não uma população geral. O estudo mediu função acomodativa e miopia transitória, não progressão do grau ao longo de meses ou anos, então não permite concluir se esse tipo de treino reduz a progressão real da miopia — os próprios autores apontam essa pergunta como território para pesquisa futura, não como algo já respondido aqui.

Perguntas frequentes sobre treino acomodativo e miopia

O que o estudo de Vasudevan, Ciuffreda e Ludlam (2009) encontrou?

Depois de 6 semanas de treino acomodativo domiciliar, a facilidade acomodativa (medida pela velocidade de resposta a flippers de lentes e ao cartão de Hart) melhorou de forma estatisticamente significativa. A magnitude inicial da miopia transitória induzida por perto não mudou de forma estatisticamente significativa, embora o tempo de dissipação dela tenha mostrado tendência de queda.

O que é miopia transitória induzida por perto (NITM)?

É um desfoque temporário para longe que aparece logo depois de um período de trabalho visual de perto prolongado, causado pela dificuldade do cristalino em relaxar rapidamente. Costuma se dissipar em segundos a poucos minutos, mas é maior e mais duradoura em pessoas míopes do que em pessoas com visão normal.

O treino acomodativo melhorou a função visual dos participantes, de forma mensurável?

Sim. Depois de 6 semanas de treino, a facilidade acomodativa aumentou de forma estatisticamente significativa: a taxa do flipper de lentes subiu de 11 para até 19 ciclos por minuto, e a do cartão de Hart, de 22 para até 33 ciclos por minuto. O estudo mediu função acomodativa — velocidade e precisão de foco —, não a progressão do grau de miopia ao longo de meses ou anos, então não permite dizer se esse treino reduz dioptrias. Mas mostra, com números objetivos, que a função acomodativa responde a exercício direcionado mesmo em pessoas já míopes.

Como foi desenhado o estudo de treino acomodativo?

Foi um estudo experimental de grupo único, com avaliação antes e depois do treino — sem grupo controle nem randomização. Dez estudantes de optometria, todos míopes em progressão, treinaram 20 minutos por dia, 5 dias por semana, ao longo de 6 semanas, com flippers de lentes, cartão de Hart e treino com prismas.

Onde foi publicado esse estudo sobre treino acomodativo e miopia?

Na Optometry and Vision Science, volume 86, número 11, páginas 1287 a 1294, em 2009, com DOI 10.1097/OPX.0b013e3181bb44cf.

Por que Tatiana Gebrael Capanema traz um estudo do qual não é autora?

Porque ele mede, com instrumentos clínicos objetivos e antes/depois bem documentado, uma ideia central do meu trabalho: que a função acomodativa do olho pode ser treinada e responde a exercício direcionado, mesmo em pessoas já míopes. Trago o resultado com a mesma honestidade que os próprios autores usaram, inclusive onde o efeito não foi significativo.

Referências